Apresentação

Este blog tem uma missão a cumprir: compartilhar receitas selecionadas e testadas por Cyléa Costa Cardoso. Nascida em Mascote (sul da Bahia) em 09/06/1938, filha de Antonio e Etelvina Seara Costa, irmã de Vilma/Binha/Simone/Maria (esta falecida) e de Tuíco/Ney/Nélio (falecidos), esposa de Guga, mãe de Tom e Cé, foi educadora de muitas gerações que estudaram no Instituto Nossa Senhora da Piedade, no Diocesano e em vários colégios de Ilhéus.

Completados 365 dias do seu falecimento (em 18/08/2010), não é possível pensar em Cyla sem que nos venha à mente, de comensais, algum cheiro ou sabor de algum prato seu. Este blog pretende apresentá-los. Também é nossa expectativa que os amigos, parentes, ex-colegas e ex-alunos possam virar "membros " e "seguidores", fazer comentários e contar casos porque pretendemos transformar todo este conteúdo em livro: um livro de receitas mágicas.

Sejam todos bem-vindos a esta Cozinha, que é de Cyla!

Antônio José Costa Cardoso (primogênito),
Augusto César Costa Cardoso (caçulinha),
Augusto José da Cruz Cardoso (maridão).

Retrato: Cyléa por seus filhos

TEXTO-HOMENAGEM A DONA CYLA


Dia 18 de agosto, hoje, completam-se 365 dias do falecimento de nossa mãe. Esposa de Augusto, irmã de Vilma/Binha/Simone/Maria (esta falecida) e de Tuico/Ney/Nélio (falecidos), educadora dos filhos e de muitas gerações que estudaram no Instituto Nossa Senhora da Piedade, no antigo Diocesano e em vários colégios da rede pública estadual, Cyléa foi um anjo bom em nossas vidas!

No esforço de prestar-lhe uma homenagem nesta efeméride, pensamos, inicialmente, em identificar um texto de sua própria lavra que pudesse fazer-nos lembrar de sua natureza, do prazer que foi viver ao seu lado ou de alguns “ensinamentos” com origem na sabedoria popular, na ciência popularizada nos meios de divulgação (televisão, revistas e jornais) e na vida.

Abrindo os baús, reencontramos muitos “conselhos de mãe” na forma de bilhetes e recadinhos trocados ao longo de quase trinta anos, desde que saímos de casa para morar em Salvador, onde fomos estudar; encontramos centenas de receitas, testadas, que virarão um Livro (http://cozinhamagicadecyla.blogspot.com); mas nada, de fato, que pudesse ser útil para hoje.

Resolvemos, então, escrever sobre nossa mama, testemunhar a experiência de ter sido filho desta mulher extraordinária, adorável, de nome, aliás, originalíssimo. Nunca encontramos outra, sequer com o mesmo nome, o que não significa dizer que fosse uma desviante. Ao contrário, viveu a dor e a delícia de ser uma mulher do seu tempo, na segunda metade do século XX em Ilhéus.

Antes de ser ilheense, Cyléa nasceu em Mascote (à época, distrito de Canavieiras) no dia 09/06/1938, filha de Antonio e Etelvina Seara Costa. Tendo perdido nosso avô ainda jovem, tornou-se aluna interna do Instituto Nossa Senhora da Piedade, onde estudou até se formar, casou e trabalhou até aposentar-se. Tendo perdido o aconchego do lar, sobreviveu a uma anemia que quase ceifou-lhe a vida.

Tornou-se “professora do estado”, casou-se e virou nossa mãe em período marcado pelo advento da pílula (anticoncepcional) e pela inserção da mulher no mundo do trabalho, mas sem deixar de ser a mãe e esposa perfeita, de modo que, desde que nos entendemos por gente, lembramos dela trabalhando fora mas acordando cedo para preparar o café da manhã e deixar o almoço “quase pronto”.

Cursou Letras na Universidade Santa Cruz enquanto nosso pai fazia Direito, tendo depois ministrado Latim na mesma universidade. Esposa e mãe exemplar, dessas que “adivinham os desejos do marido e dos filhos”, foi uma leoa na defesa da família: não era “fraquinha”, não! Enfrentou adversidades de todas as ordens, mas saiu-se vitoriosa sempre. Sem medo de ser feliz, nunca “entregou as pontas”.

Cyléa viveu o desafio de ser expulsa do paraíso com apenas doze anos quando perdeu o convívio familiar; de ter trabalhado, desde sempre, fora de casa para ajudar o marido a sustentar a família em período ainda marcado pelo machismo; e de ter convivido com um câncer em sua face por mais de dez anos, sem nunca ter esmorecido, desistido. Ao contrário, foi sempre um exemplo de luta e coragem em defesa da vida!

No espaço do lar, foi mãe e esposa mais que dedicada: era Amélia, como gostávamos de dizer para ela! Pequenininhos, nunca faltou-lhe tempo para nos levar para “passear no fim da tarde” entre leõezinhos, pedras portuguesas e sob a aprovação de São Sebastião. Assim como nosso pai, ajudava-nos com os “deveres de casa”: os escolares, porque nunca permitiu-nos ajudar com os domésticos, mulher que era do seu tempo.

Já adultos, quando lhe dizíamos que fazíamos análise por causa do desmame precoce, ela se chateava: “tenho plena consciência de que vocês dois tiveram todo o amor e alimentação que precisaram”. E tivemos mesmo. Aliás, amor e alimentos estavam de tal modo entrelaçados que não é possível pensar em nossa mãe sem que nos venha à mente, gastronômica, algum cheiro ou sabor de algum prato seu.

Mas o papel de mãe, justiça seja feita, nunca ofuscou o de esposa, embora esse testemunho deva ser dado pelo nosso pai. E, como quase tudo na vida tem um lado bom, nossa partida para Salvador, um após o outro, foi momento de “ninho vazio”, mas também “oportunidade” de construção de novo cotidiano. Devemos reconhecer que ela e Guga foram bem-sucedidos neste intento.

Vocês têm alguma idéia, mas não podem saber realmente, como era alegre e divertido viver sob o mesmo teto que Cyla! Não havia, nunca, um dia igual ao outro, o que também não significa dizer que ela fizesse coisas diferentes a cada dia. Mas era como se ela renascesse a cada dia e nos encharcasse de luz, alegria e felicidade! Podemos vê-la pulando, como uma menina feliz, a cada nascer do sol.

No espaço profissional, vocês que foram colegas ou alunos, ou as duas coisas, sabem como era responsável e dedicada a nossa professora Cyléa. Acreditamos que, em quase quarenta anos de exercício do magistério, Cyléa deve ter faltado a meia dúzia de aulas, motivada por obstáculos intransponíveis. Foi professora de português no nível médio e de todas as outras disciplinas do ensino fundamental.

Na relação familiar, dividia com nossa tia Maria o papel de conselheira. Adorava realizar a festa de Natal em nossa casa com os irmãos, cunhados e sobrinhos, decorar o salão, preparar o almoço e receber os convidados, mas sem deixar de dividir este espaço de anfitriã com meu pai, conosco e com os irmãos, de modo que a festa era sempre da família, embora ela sempre trabalhasse mais que todos.

Quanto aos amigos, dela e nossos, não se cansava de dizer que “mais vale amigo na praça que dinheiro no caixa”, que os amigos são imprescindíveis nas horas boas e ruins e que não se pode ser feliz a não ser cercado de amigos por todos os lados! E ela os tinha: amigos que lhe queriam bem como a uma “irmã de sangue”, forjada que foram essas amizades na labuta, mas também na celebração da vida.

Não há palavras para traduzir a dor da perda, a saudade da convivência e o vazio que sua morte nos trazem até hoje. Nosso pai ainda sonha com ela todos os dias e nós ainda ouvimos suas palavras de encorajamento quando estamos em alguma situação que exige esforço e sacrifício, e sentimos sua ternura maternal, seu colo, seu amor incondicional por estes filhos que não podem trazê-la de volta!.

Feita da mesma constituição das estrelas que iluminam nosso céu escuro à noite, sua lembrança embalará, eternamente, nossos melhores sonhos.